Escola de balé mais tradicional de Roraima se reinventou na pandemia

Com quase 30 anos de história em Roraima, o Ballet Cristina Rocha já contou com a presença de Ana Botafogo em um dos espetáculos

Por: Bruna Cássia e Isaque Santiago | Fotos: arquivo pessoal

Uma das artes que mais exige concentração, dedicação e esforço é o balé. No momento mais crítico da pandemia, as escolas de dança tiveram que fechar as portas e se adaptar à nova realidade, a do ensino remoto. Esse foi o caso do Balé Cristina Rocha, o mais antigo de Boa Vista, que atua no cenário local há quase três décadas.

Apesar das adversidades que o período de pandemia impôs, o balé Cristina Richa não se deu por vencido. A fundadora, que também dá nome à escola, afirmou que no começo foi difícil.

“Nem todos os bailarinos se adequaram às aulas on-line. Eu nunca havia dado tanta aula e nem me aproximado tanto dos alunos como na pandemia. Nós viramos um pouco mãe, psicóloga, pedagoga, babá, amiga, parceira, companheira e confidente porque o psicológico de todos ficou muito abalado. Mas enfrentamos e estamos enfrentando tudo isso ainda”, detalhou Cristina.

Com a flexibilização das medidas restritivas, as aulas presenciais foram retomadas aos poucos.

Foto: divulgação

“O meu lema é que a vida tem que prevalecer. Em cima disso, a gente retornou com maior cuidado, primeiro com aulas híbridas. Nos reunimos duas vezes por semana de forma presencial e duas vezes on-line e assim foi até a gente voltar toda a vida presencial, mas cumprindo todos os protocolos rigorosamente com tapetes de higienização para limpar os pés e uso de máscara. Também fazemos a sanitização da escola com uma empresa especializada para garantir que a nossa escola esteja combatendo essa pandemia da forma mais segura possível”, disse.

Cristina reforçou que neste período de pandemia, a dança e a arte como um todo tornaram o isolamento social mais leve.

“Não sei como as pessoas teriam passado essa pandemia sem um bom livro, um bom filme, uma boa série, boas músicas, poesia, dança e teatro. A arte foi a presença medicinal na vida das pessoas e a dança é arte”, reforçou.

Ela afirmou que a dança foi terapêutica para muitos alunos que perderam familiares para a Covid-19.

“Muitas alunas ficaram órfãs de avós, tios, pais, irmãos porque a orfandade às vezes vem da perda de um irmão, uma avó, isso é muito relativo. As nossas aulas puderam ser um lugar de acolhimento para essas meninas, um espaço de aconchego”, pontuou.

A dança é vista por muitos como intimidadora. Muitos têm vontade de aprender, mas se deixam levar por receios como a idade, por exemplo.

“A mensagem que eu deixo para quem quer começar o balé é que não interessa a idade, mas sim a vontade e o que você vai fazer dessa sua vontade: se você vai ser bailarina de palco, se quer fazer por um hobby, para ter um momento com a dança ou realizar um sonho de de infância. Venha, pois a dança tem um braço enorme, ela abraça muito mais do que uma atividade somente, ela é terapêutica, abraça sonhos e cura almas”, disse.

Ainda durante a pandemia, a escola apresentou o espetáculo “O Lago dos Cisnes”, que segundo Cristina, é considerado o balé mais difícil de montar do mundo. O palco desta apresentação foi o Teatro Municipal de Boa Vista.

“Eu enfrentei esse desafio em plena pandemia, trazendo dois grandes solistas. A Juliana Valadão, que é a primeira solista do Balé Municipal do Rio de Janeiro, e o Ivan Franco, que é o segundo solista também do Municipal do Rio de Janeiro, que é uma referência da dança no Brasil”, lembrou.

Conheça mais sobre o Balé Cristina Rocha

O Ballet Cristina Rocha foi fundado em 1993. Cearense, a fundadora nunca trabalhou com outra coisa que não fosse a dança. Antes mesmo de chegar em solo roraimense, ela já levava essa arte como profissão. Ela já tinha uma escola antes de vir para Roraima.

Cristina Rocha. Foto: Facebook

“No Ceará, eu comecei muito cedo a ministrar aula e muito cedo eu me identifiquei com essa paixão de formar, de explicitar a arte que me compõe”, relatou.

Cristina afirma que desde menina já sabia que esse era o caminho que seguiria. “Na verdade não é bem saber, a dança me escolheu, pois eu acho que a gente é escolhida e foi assim que aconteceu. Muito cedo eu comecei a dar aula para também entender esse caminho. Eu sempre fui apaixonada pelo ato de formar e assim começou a minha vida, mas antes de dar aulas eu dancei muito”, contou a bailarina.

Ela se apresentou muito Brasil afora e aprendeu a arte com grandes nomes da dança no cenário nacional. “Fui aluna de grandes nomes da dança, fiz curso com com Hulda Bittencourt, Eugênia Feodorova, dona Tatiana Leskova, Mônica Luiza, Hugo Bianchi, Chico Timbó, Cecília Kerche, Ana Botafogo, Leide Rossi, muita gente mesmo”, disse.

Assim que chegou em Roraima, Cristina fundou a escola que leva o nome dela. A escola foi inaugurada em julho de 1993 e desde então tem contribuído com a cultura local.

“O balé de Cristina Rocha é de formação. A criança entra e se ela for seguir carreira ela vai já com um diploma e uma certificação. Recentemente me filiei à Academia Americana de Balé. A partir de 2022 nossas alunas irão passar por uma certificação desta importante academia. Isso é de grande valor, tanto para a aluna, como pra escola e também para o Estado”, pontuou.

A escola também tem prestígio internacional, visto que já colocou alunas no Miami City Ballet, no Joffrey Ballet School, que é uma grande escola em Nova York. Além de já ter lançado bailarinas ao estrelato internacional, atualmente a escola também faz auditoria oficial para uma instituição chamada Art Case, que fica na cidade de Porto, em Portugal.

“Também sou delegada de dança pelo Conselho Brasileiro de Dança, representando o estado de Roraima. Isso tudo comprova que nossa escola fundamentou o ensino em balé clássico em Roraima e já somos uma escola muito tradicional”, disse orgulhosa.

O Ballet Cristina Rocha trabalha com o método Vaganova, que é um método russo de balé clássico. No entanto, a escola também trabalha outros estilos. “Temos também a dança do ventre, danças latinas, jazz, neoclássico e temos balé pra adulto e alongamento”, disse.

Escola já apresentou espetáculos marcantes em Boa Vista

Além do espetáculo “O Lago dos Cisnes”, o Ballet Cristina Rocha já apresentou diversos espetáculos em Boa Vista, o mais tradicional é “O Quebra-nozes”, mas as grandes apresentações não começaram por ele.

“Quanto aos espetáculos mais marcantes, eu posso falar que todos são, independente do tamanho, se tinha poucas ou muitas alunas. Quando a escola completou 15 anos, eu trouxe pela primeira vez bailarinas profissionais de fora pra entenderem um pouco do trabalho que a gente estava fazendo aqui”, lembrou.

“Como não tinha teatro aqui, eu tive que montar tudo em um clube e eu escolhi o Iate, que era o mais apropriado à época. Foi legal, lotamos o Iate Clube. Quem é daqui sabe que o espaço é grande. Eu fiquei muito feliz porque as pessoas nem acreditavam que era um balé que estava lotando um clube daquele”, relembrou emocionada.

O espetáculo “O Quebra-nozes” foi feito duas vezes em parceria com o Sesi Roraima, na praça Velia Coutinho.

“Nós unimos em uma única apresentação quase 8 mil pessoas. O sucesso foi tanto que tivemos que repetir a dose no ano seguinte. Também em parceria com o Sesi, eu trouxe a Ana Botafogo e ela fez uma participação no espetáculo, também ao ar livre, no Velia Coutinho, no espetáculo ‘A Bela Adormecida’, que também foi magnífico. Juntamos bem mais do que 8 mil pessoas, foi maravilhosa a experiência”, relembrou.

Foto: divulação

12 thoughts on “Escola de balé mais tradicional de Roraima se reinventou na pandemia

  1. Obrigada pela excelente matéria, fiquei emocionada pela forma respeitável e sensível que fora exposta a arte que tanto amo e vivo.
    Cordialmente Cristina Rocha

  2. Espetáculos lindos e sensacionais! A escola é a grande responsável por salvaguardar a cultura e a música clássica, em nosso Estado.

  3. Espetáculos lindos e sensacionais! A escola é a grande responsável por salvaguardar a cultura e a música clássica, em nosso Estado

  4. História de muita luta, pioneira no ballet em Boa Vista com criatividade e competência enriquece muito a arte em nosso estado, vi essa semente se transformar na árvore gigantesca que é hoje, quando achamos que é o máximo ela sempre nos surpreende positivamente.

  5. Que linda materia…
    Soy Andre Souza, y tuvo el placer de bailar y ministrar cursos en esta escuela.

    La verdad es que la honestidad y la amabilidad me hizo amar a este pueblo! Bailei con toda mi alma. Y agradezco a Cris, por ser más que una profesional que pasó por mi vida, pasó a ser una amiga.

    Felicitaciones y deseo lo mejor, y espero un día verlos novamente!

    Atenciosamente
    André Souza

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