Você não é super-heroína: a sobrecarga da mãe neuroatípica em tempos de pandemia

Nós, mulheres, somos muitas em uma só. Acumulamos muitas funções simultâneas. Com a pandemia, essas tarefas tornaram-se ainda mais desafiadoras. Ainda mais para quem tem filhos.

Com crianças em casa, precisamos dar conta das inúmeras atividades que já conciliávamos na era pré-Covid aos cuidados com a casa e à rotina dos filhos. 

Quem tem filhos pequenos, torna-se desafiador, pois eles não entendem que estamos em plena pandemia. Não entendem que precisam de cuidados redobrados com a higiene, nem que não podem colocar a mão ou o pé na boca.

Neste contexto, a Saúde Mental é afetada, pois temos que lidar com o medo de perder pessoas queridas e também com o luto. Além, é claro, da sobrecarga com tantas atividades. Todos esses elementos se misturam. 

Eu tenho um filho de 4 anos. Após o desmame, aos 15 meses, ele começou a apresentar uma aversão aos alimentos. Tudo o que nós oferecíamos, ele recusava. Era extremamente seletivo. Muitos diziam que era apenas uma fase, os médicos, inclusive. Ou que era excesso de distração e que era para reduzirmos os eletrônicos. Mas, nada funcionava.

Até que, certa vez, uma das nutricionistas que o atendeu sugeriu que ele procurasse uma Terapeuta Ocupacional. Ao pesquisar mais sobre de que forma essa profissional poderia me ajudar, deparei-me com o autismo.

Comecei a elencar os sintomas:

1) A Seletividade dele era fora do “senso comum”. Não era uma ou duas coisas que ele   recusava, mas ele ficava irritadíssimo apenas se comêssemos próximo a ele. Ele não queria nem ver a comida no prato.

2) Ele sempre teve muitas dificuldades para dormir. Rola muito na cama e não tem um sono tranquilo. Diziam que era normal. Eu mesma acreditava nisso.

3) Ele não comentava os nomes dos coleguinhas, os gostos e as preferências. Ele se comunicava mais por gestos quando queria algo.

4) Ele começou a ler o que estava escrito no fogão, na TV e a falar algumas coisas em inglês, sem qualquer estímulo da minha parte.

Então, começou a minha saga, em plena pandemia, para chegar a um diagnóstico: Afinal, a comunicação e a interação reduzidas eram efeito do isolamento social? Ou, de fato, ele estaria dentro do espectro?

Após conversar com algumas mães, prontamente marquei uma consulta com a neuropediatra para uma avaliação. Enquanto aguardava a data da consulta, resolvi procurar uma neuropsicóloga para já ter algo para mostrar para a médica.

Fizemos uma bateria de testes que indicou o risco médio para autismo. Iniciamos os protocolos recomendados e passamos a estimulá-lo em casa. Este período foi desafiador.

Trabalhar 40 horas semanais, com demandas imediatas, com uma criança que pedia atenção e precisava de mim.

Não conseguia pegar no notebook, pois ele não me deixava concluir nada que começava. Nós não nos compreendíamos. Eu tentava explicar, mas sabia que ainda ele não me entendia. O que antes imaginava que era “birra”, na verdade, era apenas a irritação de não ser entendido.

Mesmo brincando com ele por algumas horas, ele precisava de cuidados em tempo integral. Não tenho babá e, confesso, muitas vezes recorria aos eletrônicos na tentativa de entregar algo para meu chefe, visto que, até então, não tinha nada que comprovasse o espectro do meu filho. E a luta para um diagnóstico é desesperadora e extremamente morosa. Toda essa pressão emocional e esses desafios simultâneos levaram-me à uma crise de ansiedade ferrenha, que ocasionou um Burnout.

Todos os dias eram e ainda são bem corridos. Após meses de espera, enfim, conseguimos um diagnóstico, que aponta o Transtorno. A agenda do meu filho é concorrida. Cada espaço é disputado com diversos especialistas: fonoaudiólogo para comer, fonoaudiólogo para falar, terapia ocupacional, psicóloga, fisioterapia e creche. Ele ainda precisa de um acompanhamento terapêutico integral. Além de levá-lo para todos esses profissionais e acompanhá-lo nas sessões, tenho que encaixar um tempo para o meu trabalho, para a casa e para preparar o estímulo dele.

Ao final de cada sessão, os profissionais me instruem a como lidar com o espectro e a como fazer algumas atividades em casa. Neste turbilhão de emoções, nós tentamos aprender o máximo com eles.

Agora com o laudo que atesta o Transtorno do Espectro Autista (TEA), estarei respaldada para sair e realizar todas as atividades sem a culpa de não dar conta de tudo e, principalmente, com a segurança legal de que estou exercendo os meus direitos de criar um cidadão.

Sei que os desafios estão apenas no começo.   É preciso buscar uma escola adequada. Pelas visitas que fiz, notei que todas não estão preparadas para a inclusão. Não sei se por conta das recomendações das autoridades por conta da pandemia, sempre diziam que não há vagas.

Nos relatos que li, há muita dificuldade para as mães incluírem efetivamente seus filhos no ensino. O obstáculo não se restringe à escola, mas também a ocupação em outros espaços públicos e privados. É preciso um tratamento mais empático da sociedade e do próprio sistema, que é ineficiente e lento. 

Eu já tinha uma noção do quanto é difícil para quem é neurodiverso ou deficiente. Agora, eu faço parte desse grupo, e sei o quanto é árduo e frustrante travar tantas lutas. São vários sentimentos misturados: medo, angústia, solidão, revolta, preocupação e raiva. Mas, também, você encontra acolhimento, carinho e compreensão.

Para lidar com as coisas, é urgente cuidar da Saúde mental e emocional. É comum as famílias esquecerem de si e focar nas crianças, mas é preciso nos questionarmos: se não estivermos bem, quem cuidará delas?

Elas precisam de nós. Precisamos estar fortes e resilientes para encararmos as batalhas diárias. Portanto, façam terapia e cuidem-se. Vocês não estão sós. Estamos na mesma luta.

E um recado aos leitores que não tem filhos neuroatípicos: Se você vir uma criança gritando, fazendo a “birra”, abrace a mãe e a conforte. Não julgue, não aponte o dedo. Cada criança é um mundo. O espectro é amplo demais e, por isso, que o diagnóstico é multidisciplinar. Se queremos um mundo melhor, que sejamos mais conscientes e sensíveis.

Por Raphaela Queiroz

@damoridablog

Jornalista, blogueira, Mestre em Letras, defensora da Saúde Mental e Mãe.

1 thought on “Você não é super-heroína: a sobrecarga da mãe neuroatípica em tempos de pandemia

  1. O seu relato mostra o quanto somos vulneráveis e precisamos urgentemente mudar conceitos e sermos mais empáticas e generosas umas com as outras.

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